Eu queria ser um bicho, viver na natureza selvagem, tem tanta placidez la, parece tão fácil, tão descomplicado. Eu queria ser o que eu vejo, essas montanhas com essa grama verde, a sombra dessa árvore, queria ser um espírito pairando na floresta, aquela neblina densa, aquela calmaria, queria ser o ar.
Eu queria ser uma coisa que não precisasse de motivo para ser, que simplesmente estivesse ali, que fosse algo que as pessoas apenas passassem os olhos por um segundo sem necessidade de explicação, sem expectativa, sem interesse.
As vezes eu quero tanto ser nada, ser outra coisa: uma planta, a poeira, um silêncio, essa coisa que a gente sente quando olha uma paisagem bem bonita, da uma esperança de que as coisas não são tão ruins, o peito fica aquecido, você respira fundo, queria ser isso, uma coisa que faz sentido, que nunca é confuso, algo que já tivesse um destino certo, uma razão.
É aterrador sempre esperar algo, sempre ter que ir a algum lugar, ter sempre que falar e se explicar, fazer sentido, sentir, parecer bem, se manter na superfície, porque afundar parece tão mais fácil, exige tão menos. Não ser muito e não ser pouco, não parecer insano, desesperado e perdido, é muito pesado ser alguma coisa, por isso queria ser nada, ter um coração leve que não tivesse que carregar esse monte de sentimentos e esse monte de gente, é tão cansativo, não sei aguentar muito tempo, não sei segurar as coisas, queria soltar tudo bem do alto e simplesmente ver aquilo tudo afundar pra sempre sem nunca poder voltar pra mim. Por isso ser nada, seria ser tudo, ser a imensidão, ser o infinito, ser o vazio, um vácuo, bem sereno, bem fácil.
Mas existem tristezas muito maiores na vida e a maior em mim, é ser exatamente a única coisa que eu não queria.
Porque 'ser só' um ser humano exige muita coisa.
8/28-8-2015





